Frank, sua arte e nós

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Por Rosangela Bion de Assis, jornalista e presidente da Cooperativa Comunicacional Sul

Nunca imaginei escrever esse texto. Sua partida na madrugada úmida de 5 de junho, aos 55 anos, não estava no roteiro. No mês passado, te convidei para falar no JTT (Jornal das Trabalhadoras e Trabalhadores) das ilustrações e da capa do último livro do Rampinelli e você respondeu: ‘num tou lá essas coisas’. Mas a tal ‘nhaca’ em poucos dias te colocou na UTI e foi tudo muito rápido.

Eu conheci o Frank Maia, na primeira fase do curso de Jornalismo da UFSC, em março de 1986. Naqueles anos de tantas descobertas, você conseguiu me descrever numa arte como se pudesse ver meus pensamentos. Desde então, não nos perdemos de vista. Eram tempos de implantação e ampliação dos Departamentos de Imprensa nos sindicatos da Grande Florianópolis. Entrei no Sinergia (Sindicato dos Eletricitários) em 1988.

Gastão Cassel e eu fechávamos o semanário Linha Viva. Sem internet, computador, celular ou fax (chegou dois anos depois), tínhamos que nos encontrar pra você saber a matéria que seria ilustrada, seguindo o tamanho traçado no diagrama. Hoje encontrei a pasta de arquivo com essas páginas bem amareladas, furadas pelas traças, pra confirmar tua presença. Encontrei também duas edições do Jornal da Greve Geral de 1991, em que jornalistas de diversas entidades fecharam três ou quatro edições unificadas. E você também estava lá.

Tuas ilustrações, charges, logos, projetos gráficos e artes foram parar nos materiais de muitas entidades sindicais e sociais, em publicações impressas e virtuais, ao longo de mais de 30 anos. O processo de criação exigia muita transpiração, além da inspiração. Você materializava uma informação, um tema, uma ideia. Formas, cores e palavras concretizavam o encantamento que cativa, que choca, que comunica. Isadora Cardoso e Maurício Oliveira conseguiram fazer um lindo resgate no livro “Capa Dura Miolo Mole – uma viagem no Traço de Frank Maia.

Só no Sindprevs/SC (Sindicato dos servidores federais do INSS, Ministério da Saúde e Anvisa) você está presente em tudo o que o Departamento de Comunicação fez nesses 34 anos. O jornal Previsão completa, esse ano, 33 anos de existência com tuas ilustrações e diversos projetos gráficos. Frank era um trabalhador a serviço da classe trabalhadora.

Além das labutas, continuávamos próximos na vida: casamentos, separações, filho, filhas, suas meninas, um netinho, teu grande amor pela Patrícia, a grande insegurança que é ser remunerado pela produção, como autônomo. Hoje também te revi, no meu convite de casamento, em canecas, camisetas, capas, convites de aniversário, sacolas, revistas, adesivos, cartazes, botons e muitos, muitos jornais. E ainda recordei tuas artes viajando nos ônibus, exposta em outdoors, carregadas nas passeatas.

Em 2020, quase conseguimos te homenagear no 9º Café AntiColonial do Portal Desacato, mas a pandemia impossibilitou o encontro dos ‘Guerrilheiros do Traço’. Quando a situação sanitária melhorou, em dezembro de 2021, você participou do encontro de fim de ano dos colunistas e colaboradores do Portal. Patrícia Bolsoni e Marcoliva tocaram pra gente, cantamos e, vacinados, voltamos a nos abraçar. Montamos sanduíches, rimos, conversamos muito e, quando a noite chegou, a gente não queria que aquele dia terminasse.

Amigo, vamos ter que continuar sem você. Ainda bem que você deixou tanto. A vida ficou mais leve e bela por onde você passou. Cada dia será menos difícil, eu sei, até chegar aquele em que essas lembranças só provoquem sorrisos, tão grandes quanto o seu.

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