Desastre em Brumadinho: a contagem que importa para eles

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O dinheiro não vale mais do que a vida. E, até agora, a contagem de vidas perdidas em Brumadinho já chega a 110. Mas, infelizmente, a contagem que importa para eles é a do dinheiro. É só passar os olhos nas notícias. No dia 25, dia da tragédia, a Folha de São Paulo noticiava: “Papéis da Vale fecham com queda de mais de 8% na Bolsa de Nova York”.

O Ministro-Chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni afirmou ontem, dia 30, que uma intervenção na Diretoria da Vale “não seria sinalização desejável ao mercado”. Na esteira da fala do Ministro, a corretora XP Investimentos, uma das maiores corretoras independentes do Brasil diz que “eventual mudança na diretoria, promovida pelo governo, seria prejudicial à companhia”.

Já o Ministro do Gabinete de Segurança Institucional, General Augusto Heleno, afirmou, logo após o rompimento da barragem, defender a flexibilização de licenciamento ambiental. Apesar de declarar que o modelo de barragens como a de Mariana e Brumadinho devem ser desativadas, o Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles mantém a postura de simplificar e agilizar licenças, pensando no capital mais do que no social, permitindo que aconteçam ainda mais crimes ambientais.

Enquanto bombeiros que fazem os resgates arriscando a própria vida estão com salários atrasados e parcelados, o “mercado” se preocupa com a continuidade da produção da mineradora. A revista Veja transcreve avaliação do Credit Suisse para acalmar os investidores: a Vale deve ter flexibilidade, dada sua capacidade ociosa, de potencialmente compensar quaisquer perdas de curto prazo nos embarques que poderiam se desdobrar a partir deste local com outras operações, e ainda entregar [uma produção] dentro de sua projeção anual, em nossa visão”.

O valor da vida é tão pequeno nas transações financeiras e nas páginas de jornais, que a Folha de São Paulo traz uma reprotagem com o tenebroso título:  “Veja o que fazer com as ações da Vale após tragédia”, justificando: Se o investidor acredita que a empresa vai se recuperar, é possível manter as ações”.

A Vale, que acumula mais de R$ 8 bilhões em ações judiciais por crimes ambientais antes mesmo do desastre de Brumadinho, veio a público afirmar que “doará” R$ 100 mil a cada vítima fatal da tragédia. Quando se destrói uma vida por motivos tão banais quanto o lucro desenfreado, existe “caridade”?

Vale lembrar, que o mesmo mercado que se preocupa com ações e despreza a vida, financiou o golpe contra o direito dos trabalhadores, que impacta diretamente na busca por justas indenizações. Limitada a 50 vezes o valor do salário, os custos das ações trabalhistas não terão impacto algum à uma empresa que mata sem sanções. Aliás, para quem só entende a língua das cifras, poder matar sem perder dinheiro é um estímulo ao desastre.

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