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CELESC: O orçamento e os trabalhadores

É PRECISO ESTRUTURA PARA QUE OS TRABALHADORES CONTINUEM A PRESTAR O SERVIÇO PÚBLICO

Nos últimos anos, o discurso pela manutenção da Celesc Pública ganhou força. Neste mandato, o Governador Jorginho Mello (PL) participou de diversos eventos dos celesquianos e manteve a promessa de não privatizar a empresa, reconhecendo-a como importante instrumento de políticas públicas para o desenvolvimento de Santa Catarina. Durante boa parte deste mandato, porém, a presidência da Celesc destoou do Governador. Tarcísio Rosa não escondia sua predileção por uma empresa privada, chegando a afirmar que o caminho da Celesc era a privatização — e foi sob essa ótica que a empresa foi estruturada e planejada em sua gestão.

O aumento desenfreado da distribuição de dividendos contrastou com a destruição da capacidade operacional da Celesc: quanto mais dinheiro ia para os acionistas, menos trabalhadores restavam no quadro para atender a sociedade. A terceirização cresceu, a precarização veio junto e a própria sociedade se manifestou, derrubando a classificação da Celesc nos prêmios de qualidade da Aneel. Os trabalhadores já denunciaram essa visão privada de gestão nos Seminários Regionais e nos Congressos dos Empregados: a empresa seguia um caminho incompatível com seu propósito de prover energia para o desenvolvimento e a qualidade de vida dos catarinenses.

Tarcísio foi embora e em seu lugar veio Edson Moritz, com discurso alinhado ao do Governador e defesa aberta da Celesc pública — algo que seu antecessor nunca fez. Recentemente, Moritz assinou artigo no portal do jornalista Upiara Boschi, intitulado “A energia que move Santa Catarina tem rosto e voz”*, exaltando o papel dos trabalhadores da empresa: “Para que chegue aos catarinenses com segurança e confiabilidade, há profissionais que trabalham diariamente na rede e no atendimento, muitas vezes em situações difíceis e em horários em que a maioria das pessoas já está em casa”. E conclui: “Cumprir essa missão exige planejamento, infraestrutura e, acima de tudo, profissionais comprometidos com as pessoas”.

A Intercel concorda e parabeniza o Presidente da Celesc por reconhecer publicamente os trabalhadores. É preciso um quadro de pessoal próprio adequado às necessidades operacionais da empresa, assim como condições de trabalho, remuneração e vida que permitam aos celesquianos manter o serviço de excelência que é a marca da Celesc. Justamente por concordar com o Presidente, consideramos preocupantes as notícias divulgadas pelo Representante dos Empregados no Conselho de Administração, Paulo Horn, sobre os debates do planejamento estratégico e do orçamento da Celesc para os próximos anos.

A REALIDADE IGNORADA
Segundo o Boletim do Conselheiro nº 120, o ciclo de debates do Conselho de Administração trouxe boas ideias, como os workshops regionais em que os administradores apresentaram à Diretoria as deficiências, necessidades e oportunidades de cada Agência Regional. Um tema foi uníssono: a falta de pessoal. Todos apontaram a necessidade de recompor o quadro próprio, deficitário e defasado, para garantir a continuidade do serviço prestado e o desenvolvimento de Santa Catarina.

Parece, porém, que não houve escuta. Ainda conforme o Boletim do Conselheiro, a proposta da Diretoria para o orçamento aprofunda a falta de pessoal, com uma previsão de contratações que, na prática, significa redução do quadro próprio. Pior: há dentro da Diretoria a visão de que haveria excesso de trabalhadores, com a possibilidade de redução de 15% do quadro na atividade-meio e de 5% na atividade-fim. Essa visão se escora numa comparação setorial que é péssima, afinal a distribuição de energia elétrica no Brasil está praticamente toda privatizada.

Enquanto o discurso exalta os trabalhadores, o orçamento caminha para mais terceirização: equipes terceirizadas de linha viva, linha morta e emergência vão crescendo, mesmo com custo cada vez maior. Na gestão Tarcísio, um dos discursos mais batidos era o de que o custo de pessoal seria o “ofensor” dos resultados da Celesc. A atual gestão não repete esse discurso, é bem verdade, mas ao prever um orçamento sem recomposição de pessoal e com aumento da terceirização expõe que a cisma com o P é mais política do que real. A rubrica de P não é isolada: ela compõe o custeio operacional ao lado do MSO (Materiais, Serviços e Outros). E o que se vê é o custo de Pessoal artificialmente controlado pela precarização do quadro, enquanto o MSO vai se descontrolando com mais terceirização, consultorias, aluguéis e por aí vai.

UMA CELESC PÚBLICA NÃO PODE IGNORAR OS TRABALHADORES
A Diretoria da Celesc destaca, com razão, a soma de investimentos deste ciclo, superando os R$ 4,5 bilhões anunciados. Investir na rede é necessário, principalmente diante do crescimento do mercado catarinense e da demanda da população por energia de qualidade. Mas investir na rede e descuidar de quem cuida dela é um contrassenso que expõe a lógica do retorno: investe-se porque há retorno financeiro ao acionista, que ao longo dos últimos anos tem visto lucros crescentes e mais dividendos — uma parcela maior de mais dinheiro entrando no seu bolso.

O papel da empresa pública, contudo, é o atendimento à sociedade — e a Celesc é reconhecida pelo trabalho das pessoas. “São esses profissionais que, todos os dias, dão rosto e voz à energia que faz Santa Catarina avançar”, diz o artigo do Presidente. Então, se os trabalhadores são essenciais, se a qualidade do serviço depende de um dimensionamento e gerenciamento corretos do quadro (para evitar o estrago causado, por exemplo, pela ingerência e pela falta de planejamento do verão passado), por que eles seguem sendo tratados apenas como um custo no orçamento da Celesc?

O representante dos empregados destacou no Boletim a frase de um Administrador Regional: “A estrutura precisa acompanhar a escala do crescimento: mercado, consumidores, GD e volume de obras cresceram. A capacidade interna permaneceu praticamente estável”. Ela resume o erro de insistir numa visão que alija os trabalhadores. O orçamento precisa considerar a reestruturação do quadro de pessoal próprio, porque investimentos em tecnologia são importantes, mas são acessórios e não vão eliminar a necessidade de pessoas.

É preciso ir para um novo caminho. Há alguns anos, um presidente da Celesc repetia uma frase atribuída a Albert Einstein: “Insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes”. Pois o orçamento da Celesc permanece sendo construído na crença equivocada de que a empresa — e a sociedade — não precisam dos trabalhadores. Fazer o mesmo vai levar ao caminho de precarização que temos visto, e que a própria sociedade tem apontado. É preciso mudar essa lógica. Porque, para ser uma empresa que faz Santa Catarina avançar, a Celesc precisa de trabalhadores que a carreguem para frente.

*Link do artigo: https://upiara.com.br/artigos/a-energia-que-move-santa-catarina-tem-rosto-e-voz-por-edson-moritz/

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