Os avanços e impactos do modelo de transição energética em Cuba (2026)

A transição energética para fontes renováveis constitui um pilar fundamental para enfrentar os desafios atuais do país. Cuba avança gradualmente em seu programa de instalação de sistemas solares fotovoltaicos

Desde 29 de janeiro deste ano, nós, cubanos, estamos submetidos a uma dura realidade imposta por sanções do governo dos Estados Unidos — o chamado “Cerco Petrolífero”. Essa medida asfixia a economia cubana em níveis elevadíssimos, e o custo de vida atingiu patamares extraordinários e sem precedentes.

Nesses seis meses, as adversidades e vicissitudes decorrentes das sanções ligadas ao cerco petrolífero, foram documentadas estatisticamente; números apresentados por diversos meios de comunicação — tanto oficiais quanto independentes, nacionais e estrangeiros — mostram a dimensão dos danos causados por essa sanção unilateral ao nosso país.

No entanto, em minha opinião, os aspectos mais complexos e incalculáveis são os sentimentos de desesperança, incerteza ou impotência que vivenciamos.

Em março deste ano, amigos e militantes do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) — integrantes da VI Turma e da terceira etapa do curso “Energia e Sociedade no Capitalismo Contemporâneo” — perguntaram-me, com sensibilidade e incerteza, como Cuba estava vivendo nessa situação. Respondi com outra pergunta: “Algum país do mundo consegue viver sem suprimentos de petróleo?”.

A resposta — inclusive para mim — foi não; nenhum país consegue viver sem combustíveis fósseis. Expliquei e ilustrei a situação de colapso econômico e social que enfrentávamos até março e o que fazíamos para sobreviver.

Nos meses seguintes e até hoje, a situação piorou: enfrentamos cortes de energia de até 20 horas ininterruptas sem eletricidade.

A geração de energia tem conseguido suprir apenas cerca de um terço da demanda diária (3.100 ou 3.200 MW), e o sistema sofreu 11 desligamentos — dados que ilustram de forma contundente o custo do cerco energético em Cuba.

Cuba, por meio da resistência, da criatividade, da ciência, do uso de fontes renováveis, da atuação do Estado e do Governo e do saber popular, reverte a situação e implementa soluções parciais que geram bem-estar aos cubanos neste cenário tão complexo.

A Estratégia Nacional para a Transição Energética em Cuba vem sendo desenvolvida desde 2024; ela visa contribuir para a recuperação da economia nacional e seu posterior crescimento mediante um fornecimento suficiente e soberano de serviços energéticos — ao menor custo possível e com uso eficiente —, além de elevar a qualidade de vida da população ao atender à demanda e garantir acessibilidade, preços módicos e segurança nos serviços energéticos para o setor residencial.

A resposta mais vigorosa às sanções ou ao bloqueio de petróleo ocorreu nos últimos quatro meses; ilustro isso com dados do município onde resido, El Salvador, na província de Guantánamo, onde grande parte do setor de serviços e do setor residencial foi beneficiada pela instalação de mais de 70 kits fotovoltaicos no território.

Sistemas fotovoltaicos instalados no setor de serviços:
Agência bancária: 32 kW de potência instalada (realiza pagamentos a 2.540 aposentados e atende 60 cooperativas agrícolas, 4 empresas e 740 trabalhadores autônomos)
Agência da companhia de comunicações: 50 kW de potência instalada
Agência da companhia de eletricidade: 6 kW de potência instalada
Policlínicas e centros do sistema de saúde municipal: 18 kW de potência instalada
(atende por mês média de 92 internações na ala de obstetrícia, 107 de terapia, 117 consultas médicas e 2.330 atendimentos de pronto-socorro)
Serviços funerários locais: 4 kW de potência instalada
Sistema de centros culturais locais: 16 kW de potência instalada
Diretoria municipal de planejamento e economia: 2 kW de potência instalada Comitê municipal do Partido Comunista de Cuba: 2 kW de potência instalada Sistemas fotovoltaicos instalados no setor residencial: Parque fotovoltaico na comunidade La Escondida, com 48 kW de potência instalada.

Em zonas sem acesso à rede elétrica (zonas “zero voltagem”), foram instalados 13 sistemas de 2 kW de potência (nas comunidades Chapala 8, La Cidra, Los Torteros e Media Luna).

Esses sistemas trazem satisfação e benefícios ao nosso município, pois viabilizam serviços básicos que melhoram a vida de uma população de mais de 42 mil habitantes, incluindo a instalação de sistemas fotovoltaicos em comunidades que não tinham acesso ao sistema elétrico nacional (baseado em combustíveis fósseis).

Os serviços viabilizados por esses kits garantem consultas médicas 24 horas por dia, assistência social e médica a idosos que necessitam de cuidados, a manutenção das operações financeiras de empresas e entidades locais, a realização de pagamentos, o uso de serviços de banco móvel e transações bancárias diárias, a conectividade e o acesso 24 horas a telefonia e comunicações, serviços funerários, o cozimento de alimentos por indução e outras tecnologias domésticas, além do acesso a espaços culturais que promovem a integração e o lazer social.

A maior satisfação não reside apenas na capacidade fotovoltaica instalada em termos quantitativos — embora isso seja muito importante, garanto; a maior satisfação é poder usufruir desses serviços, construir coletivamente, ajudar o próximo e compreender como as energias comunitárias se articulam em tempos de crise energética.

Um aspecto muito interessante dessa estratégia de transição energética em Cuba é a participação popular no modelo energético do país; esse fator tem valor inestimável para a construção e o desenvolvimento, assim como a autogestão, a capacitação e a educação sobre o uso de tecnologias fotovoltaicas, garantindo a participação consciente de cada indivíduo na sociedade e o envolvimento de recursos humanos em todos os níveis educacionais.

Outro aspecto importante na construção e no desenvolvimento da estratégia são as doações de kits fotovoltaicos realizadas por movimentos sociais de todo o mundo, organizações e pela colaboração internacional no exercício da solidariedade, além da elaboração de projetos de pesquisa que atendem aos serviços e ao setor residencial.

Embora ainda haja muito a fazer para suprir as demandas energéticas do município, essas capacidades instaladas promovem o bem-estar da população e garantem o atendimento mínimo aos principais serviços básicos e residenciais.

Alcançar, com a participação de toda a sociedade, uma rápida Transição Energética que garanta — ao menor custo possível e com impacto ambiental positivo — a suficiência, a soberania e a segurança do suprimento de energia necessário para o desenvolvimento sustentável do país é o objetivo da Estratégia Nacional para a Transição Energética.

¡Cuba vive, resiste y crea! ¡Cuba no está sola! ¡Hasta la victoria siempre!

Texto: Luis Raúl López Ibañez (Discente do curso de Especialização em Energia e Sociedade no Capitalismo Contemporâneo, pela UFRJ) e Aliobys Cabrera Calderín (Profesor do Centro Universitário El Salvador)

Nota: dados confirmados pela unidade local de energia elétrica do município de El Salvador.

A demanda elétrica do município de El Salvador é de 1.300 MW mensais e 43,33 MW diários.

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