O jornalismo, assim como Adelmo, vive

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Por Elaine Tavares,
jornalista

O Curso de Jornalismo da UFSC está completando 40 anos e tem realizado uma série de atividades para celebrar essas quatro décadas de formação. Nessa quarta-feira, uma em particular encheu meu coração de alegria. A inauguração de uma placa que dá o nome de Adelmo Genro Filho a uma das salas de estudo do Curso. Nada poderia ser mais especial.

É fato que ao longo desses 40 anos muitos educadores de alta qualidade passaram por ali. Mas, Adelmo, pelo menos para mim, é singular. Ele me ensinou a escrever os textos jornalísticos de tal modo que eles extrapolassem a particularidade redutora. Porque ele foi o criador da “teoria marxista do jornalismo”. Uma teoria que nos ensina ser o fazer jornalístico não apenas o ato de escrever uma notícia, mas uma práxis complexa e poderosa.

Escrever não é só responder as seis perguntas básicas do lead. Escrever é pensar o fato desde a sua singularidade, mas sendo capaz de narrar ali, no espaço curto da notícia, a universalidade do acontecimento. Isso é uma revolução, porque nos tira do espaço da ideologia, da manipulação e nos coloca no caminho do conhecimento. O jornalismo é produção de conhecimento.

Não tive a sorte de conhecer Adelmo pessoalmente. Quando cheguei ao curso de jornalismo ele estava fora, em licença, e logo em seguida morreu. Mas, tive um mestre: Sérgio Weigert, que era seu amigo e parceiro de letras. Ele nos apresentou Adelmo. Ele nos fez ler e compreender aquele livro denso e cheio de complexidade, ele nos ajudou a desvendar o segredo da pirâmide, esse enigma que Adelmo torna tão simples. Sérgio nos fez percorrer os caminhos intricados da filosofia, abertos a facão por Adelmo ali, naquele curso. E, na paixão do Sérgio por aquele homem e suas ideias, fomos nos apaixonando também.

Desde 1988 que o livro do Adelmo é meu livro de cabeceira. A ele volto em cada dúvida, em cada momento de perplexidade diante do jornalismo. E ali estão as palavras que me movem na certeza de que o jornalismo é a melhor das estradas.

Ontem, no lançamento da placa, o colega Samuel Lima fez uma breve apresentação do homem Adelmo, e de suas obras. Samuel foi seu aluno e conheceu, além do gênio, o ser. Assim como ele, outros colegas jornalistas, que acorreram à homenagem também fizeram falas emocionadas sobre a figura do Adelmo e sua importância no jornalismo. Gente como a Néri Pedroso, que o conheceu ainda jovenzinho, em Santa Maria, e Gastão Cassel, também de lá, que trouxeram imagens de tempos distantes quando Adelmo era só um rapaz latino-americano iniciando sua caminhada na política e na teoria. Outros que o conheceram como colega de trabalho, como Eduardo Meditsch, e que tem sido um propagador de suas ideias, e um número expressivo de ex-alunos que ainda carregam nas retinas sua figura generosa, paciente e brilhante.

Eu nunca o vi. Mas, desde que mergulhei, pelas mãos do Sérgio, em seu livro mais importante, “O Segredo da Pirâmide”, compreendi que se nunca o vi, sempre o amei. Por ter nos trazido essa teoria, essa forma de pensar o jornalismo, essa práxis libertadora. Ao ouvir as palavras daqueles que o conheceram fui tomada pela emoção. Adelmo não é um rosto na foto. Não é uma placa de lata, não é o nome de um centro acadêmico. Adelmo é fonte de conhecimento e vive. Hoje e sempre. Porque sua teoria segue sendo ensinada nas salinhas do jornalismo, porque suas palavras seguem queimando pestanas, porque sua maneira de pensar o jornalismo é ainda absolutamente necessária.

Adelmo circula por aqueles corredores, mastigando seu cachimbo. E ontem, enquanto tantos que o amaram estavam ali o reverenciando, ele deve ter sorrido, feliz, por se saber ainda tão vivo.

Parabéns ao Curso de Jornalismo e a todos os professores e professoras que seguem levando essa labareda de conhecimento e de belezas que ajuda a formar bons narradores de vida. O jornalismo, assim como Adelmo, vive.

Agradeço imensamente a Maria José Baldessar, que generosamente me concedeu a honra de descerrar a placa junto com Samuel Lima. Foi uma surpresa e uma emoção inaudita. Porque foi ali, naquele espaço que um dia eu encontrei esse homem que até hoje me carrega às alturas da delícia que é fazer jornalismo como forma de conhecimento. Foi uma das maiores alegrias da minha vida.

Que Adelmo siga caminhando, soberano, por aqueles corredores.

Adelmo, presente.

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