Ainda sobre o 1º de Maio

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Por Paulo Guilherme Horn,
diretor do Sindinorte e jornalista da Intercel

Um erro e um acerto. Esse é o resultado final da Celesc nas homenagens do dia do trabalhador. Internamente, através do e-mail corporativo, a empresa encaminhou aos trabalhadores uma mensagem felicitando a todos pelo dia do trabalhador e convidando aos celesquianos para acompanharem as ações da empresa nas redes sociais.

Entretanto, nas redes sociais, as mensagens da empresa foram de comemoração do dia do trabalho. O texto das publicações no perfil oficial da companhia em Facebook e Instagram dizia: “o dia do trabalho é uma data comemorativa internacional, celebrada anualmente no dia 1º de maio, em quase todos os países do mundo, sendo feriado em muitos deles”. Se tu jogar no Google, vai ver que esse é o texto do wikipedia, uma “enciclopédia” virtual onde todos podem escrever. Apesar de prática, é conhecida por suas fontes não serem confiáveis.

Já escrevi sobre a história do dia dos trabalhadores. Não tem nada de dia do trabalho. Resumidamente, o primeiro de maio é uma data de reconhecimento da luta dos trabalhadores e remonta a 1886, quando 500 mil trabalhadores da cidade americana de Chicago foram às ruas reivindicar melhores condições de trabalho.

No mesmo dia ocorreu uma grande greve geral. As manifestações em Chicago foram violentamente reprimidas, com trabalhadores presos e mortos. Para homenagear aqueles que morreram nos confrontos, a Segunda Internacional Socialista reiterou, em 1889, que o Dia Internacional dos Trabalhadores seria comemorado no 1º de maio de cada ano. No Brasil, a data foi oficializada em 1924. Em 1943, Getúlio Vargas simbolicamente promulgou a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) no dia 1º de maio.

Meu último texto fala sobre a banalização da data e a tentativa de se reescrever a história, apagando os trabalhadores e suas lutas dela. Não, não estou dizendo que esta foi a intenção da Celesc ao utilizar o termo “dia do trabalho”. Mas que contribui, isso é verdade. Principalmente se pensarmos no papel das redes sociais em todo o processo de deslegitimação e ataques à classe trabalhadora e suas representações.

Através das redes sociais (e do whattsapp) convenceram uma grande parcela da população que era preciso destruir a CLT para gerar emprego. Agora temos menos direitos, mais exploração e uma taxa cada vez maior de desemprego. Através das redes sociais também convenceram que a reforma da previdência é inevitável.

Agora vemos negociatas que acabam com a seguridade social serem tocadas sem que os grandes devedores da previdência fossem cobrados e sem que a dívida pública fosse auditada. Também convenceram que as empresas públicas são ineficientes, antros e corrupção estatal que devem ser entregues ao mercado, este sim ético e responsável. Novamente vemos o corre-corre para vender o patrimônio público sem que isso represente, de fato, melhora na qualidade do serviço prestado ao povo. E, deixando o pior por último, através das redes sociais, convenceram o povo que era preciso votar em quem está encaminhando todos os ataques contra os trabalhadores.

Isto é história. E eles também querem acabar com ela. Revisionismo é o nome técnico para a safadeza de mentir por meios oficiais e mudar os registros da realidade. Utilizando as redes sociais e uma série de notícias falsas, cria-se a base para que os trabalhadores sejam apagados da história. Suas lutas, seus anseios são escondidos. Suas conquistas passam a ser fruto da bondade do patrão. Aos poucos nos tiram a identidade e o protagonismo histórico.

Como disse antes, creio que este não era a a intenção da Celesc. Mas o erro contribui. O bom é que ainda há tempo para corrigi-lo. Para que, se algum dia alguém procurar saber, estar registrado que o 1º de maio é o dia dos trabalhadores.

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