A agenda Bolsonaro não é para governar

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Por Gastão Cassel, jornalista

A dificuldade corrente de compreender o que é efetivamente o governo Bolsonaro tem sua razão. Não é um governo como todos os bons e os ruins que tivemos sob a democracia. Ao contrário de todos os governos republicanos, o atual não tem uma agenda que considere as instituições e a ordem elementar dos poderes. Bem ao contrário, sua agenda “corre por fora” das instituições, as despreza e sabota. E não por acaso.

Bolsonaro não acredita na democracia e nas instituições, e se movimenta no sentido da construção de uma (des)ordem autoritária, caudilhesca, caótica e bárbara. Seu histórico de defesa de grupos de extermínio, esquadrões da morte e organizações extralegais faz todo sentido com seu jeito de tocar o governo (não confunda com governar).

Evidentemente o presidente não tem uma agenda para governar, que seria um plano econômico, um plano de desenvolvimento, políticas públicas para diversos setores. Não tem nada porque acha – e já disse isso literalmente – que precisa destruir o que existe, como se lixo fosse. A inoperância e a incompetência são a marca de seu ministério, que nada faz além de demolir as políticas públicas de diversos setores.

Não há no Planalto nem sombra de preocupação com o desemprego que aumentou, com a crise no comércio exterior gerada pelos desmandos verbais de vários atores, nem com a vida real da população. Mesmo a nefasta reforma da previdência, cobrada pelos aliados empresários e banqueiros, não merece empenho presidencial. Uma espécie de “tanto faz” que desnorteia até os mais achegados.

Mesmo na atual polêmica sobre a “celebração” da ditadura ele não se propõe a homenagear os generais-presidentes ou as lideranças militares (não que estes mereçam homenagens). Ele enaltece os paramilitares que operaram o terror, o lado mais sujo e podre do regime militar. Não está nem aí para Castelo Branco, Geisel ou Médici, que seu ídolo é o Ustra, o torturador reconhecido pela Justiça.

Seu foco é criar uma narrativa que o faz vítima da mídia, de conspirações fantásticas para o impedir de governar. Claramente, quando a crise econômica que vem sendo represada pelo mercado explodir, ele ainda vai querer justificar que foi porque não o deixaram governar e, assim, dar mais um passo na construção da sua autonomia monocrática e ditatorial. Não por acaso, recentemente incitou sua horda de apoiadores a desmoralizar o Supremo Tribunal Federal que, por pior que seja, faz parte da estrutura republicana.

Bolsonaro quer construir um poder na margem das instituições. Seus esbravejamentos nas redes sociais e a tentativa diária de se comunicar diretamente com seu eleitorado (não com a Nação), via lives no Facebook, denunciam o desejo de virar caudilho, de governar sozinho, sem as mediações previstas na Constituição e na ordem democrática.

Todos os que se alinham mais intimamente com sua visão política governam ou gerenciam com o mesmo tom: sem reconhecer interlocutores, desprezando a sociedade civil organizada, o parlamento, as representações, governando “por conta”.

Medidas como a ampliação da posse de armas só fazem fortalecer estruturas paramilitares, legalizar o extermínio de gente por policiais em serviço ou fora dele. Em uma frase, fortalece as milícias, que defende desde o tempo de deputado, e com as quais têm relação no mínimo promíscua.

Bolsonaro não quer governar, quer ser um ditador. Por isso não tem agenda de governo, mas agenda de disputa de opinião irresponsável, bélica e alicerçada sobre valores nada humanos ou patrióticos.

Bolsonaro quer reinventar o fascismo e, para isso, precisa destruir as instituições, os poderes institucionais e as representações populares.

Bolsonaro não tem agenda governamental. Apenas um apetite descomunal para ser um ditador.

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