Paraná: Apagão nas eleições expõe o legado da privatização da Copel
Mais de 300 mil unidades ficaram sem luz no Paraná no dia da eleição. Episódio reforça o alerta: quando a energia vira negócio, quem paga a conta é a população
As eleições do último domingo, 4 de outubro, no Paraná, foram marcadas pela falta de energia em 94 municípios. Em pelo menos 213 locais de votação, os eleitores tiveram que votar sem luz, e as urnas eletrônicas funcionaram por meio das baterias. Houve a necessidade da utilização de um carro elétrico para fornecer energia a um cartório eleitoral em Salto do Lontra, no sudoeste do estado.
Uma parte do estado registrou chuva e ventos de até 124 km/h, à 1h de domingo, em Laranjeiras do Sul. A Companhia Paranaense de Energia (Copel) emitiu um alerta às 8h de domingo informando que 308,7 mil unidades consumidoras no estado estavam sem energia. Às 12h, ainda havia 202,5 mil unidades no escuro no Paraná.
Os estragos provocados pela chuva e pelo vento têm sido eventos cada vez mais frequentes em toda a região. O que se observa, contudo, é que, desde a privatização da Copel pelo governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), em 2023, cresce também a preocupação sobre a capacidade de uma empresa que deixou de ter o controle público de garantir um serviço essencial para a população.
A Copel era reconhecida pela qualidade dos serviços enquanto empresa estatal. Com a privatização, a lógica do lucro ganhou espaço em uma atividade que deveria ter como prioridade a qualidade do atendimento à população.
E quando uma tempestade derruba postes e interrompe o fornecimento, é justamente nesse momento que se percebe a importância de uma empresa estruturada, com trabalhadores em número suficiente, veículos e ferramentas adequadas, investimentos permanentes e capacidade de resposta rápida.
Não se trata de culpar a chuva pelo que a chuva provoca.
Trata-se de perguntar se uma empresa privada, responsável por um serviço essencial, está preparada para enfrentar eventos climáticos cada vez mais severos — e se os investimentos necessários estão sendo feitos na mesma velocidade em que aumentam os riscos.
A pergunta que fica é: se a energia elétrica é essencial para o funcionamento de hospitais, escolas, serviços públicos, comércio e até para o exercício do direito ao voto, faz sentido entregar o controle desse serviço à lógica do mercado?
As experiências da Copel e também da CEEE, no Rio Grande do Sul, deveriam servir de alerta para Santa Catarina. A Celesc continua sendo uma empresa pública e estratégica para o estado. E é justamente por isso que sua manutenção como patrimônio dos catarinenses precisa ser defendida.
Empresa pública não é sinônimo de empresa sem problemas. Mas, diante de eventos extremos, a diferença está em quem define as prioridades: o interesse público ou o retorno aos acionistas.
Quando falta energia, a população não quer saber quem é o dono da empresa. Quer que a luz volte. E para que ela volte rapidamente, é preciso investimento, planejamento, trabalhadores valorizados e uma estrutura preparada para enfrentar emergências.
O apagão nas eleições do Paraná deixa uma pergunta que também interessa aos catarinenses: queremos uma Celesc pública, planejada para atender à população, ou uma empresa submetida à lógica do lucro?
Para o Linha Viva, a resposta é clara: energia é direito, não mercadoria.


