O Homem da Luz foi embora

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Por Luiz Cézare Vieira e Paulo Sá Brito

O Homem da Luz, como era conhecido no Ribeirão, chegou naquele pedaço do sul da Ilha nos idos de 1954, com 21 anos de idade, para fazer as primeiras instalações elétricas no lugar. A Celesc ainda nem havia sido criada.

Antes, em um rompante típico dos 18 anos, decidira aventurar. Despediu-se da família e, sem rumo definido, “não tinha nada a perder”, foi parar em Joinville. Trabalhou em uma cervejaria e depois na Empresul, a antiga concessionária de energia da cidade. Mas não suportou as pressões da mãe implorando sua volta. Retornou ao lugar onde nasceu, no bairro da Costeira do Pirajubaé. Empregou-se na Elffa (Empresa de Luz e Força de Florianópolis).

Foi lá no Ribeirão que conheceu a esposa, Leontina Leonor de Fraga, nativa da Caiacanga, extremo sul da Ilha. E com ela viveu durante todos esses 63 anos.

O Homem da Luz fazia de tudo: instalava a rede, ligava consumidores, consertava defeitos dentro e fora das casas, cobrava a conta e cortava a luz de quem não pagava.

De fala fácil e memória prodigiosa, Isidro guardou uma penca de histórias engraçadas e folclóricas. Em encontros divertidos em sua casa no Ribeirão e na sede da Apcelesc, contou-nos algumas delas, registradas nos livros Rádio Peão e Histórias de Luz.  

Naqueles “tempos duros, mas felizes”, o meio de transporte eram as próprias pernas ou, no máximo, uma bicicleta. Quando necessitava carregar postes, pedia emprestada uma junta de boi carreiro. Ou o amigo Aparício lhe cedia um caminhão Chevrolet 1942. O primeiro fusca só apareceu por lá em 1965.

Embora as feições aparentem um sujeito enfezado, autoritário, ele era amigo da comunidade, tinha “o coração do tamanho de um boi”, prestava favores, atendia a todos com cortesia. Sua atividade no bairro não se limitou à eletricidade. Foi um dos diretores que, em 1971, recuperou o Clube Bandeirantes, então falido. Com a ajuda do Zeca do Candonga, do compadre José Eleodoro e do famoso Valdir gaiteiro, todos empoleirados no caminhão do sargento Esperanto, da Base Aérea, percorreram o Ribeirão angariando sócios. Quem negaria um pedido daquele “que nas horas difíceis nos atende a luz”?

Em 1981, trabalhando na Armação do Pântano do Sul no alto de um poste, desequilibrou-se e tombou lá de cima. Estava com 48 anos de idade. Foi aposentado por invalidez.

Mas o Homem da Luz não foi talhado para ficar em casa. Em fevereiro de 1988, quando “soube que o pessoal do sindicato estava falando em uma associação de aposentados” uma centelha na mente não lhe deu mais sossego. E embora a turma do contra apregoasse que a associação iria dar em nada, que era perda de tempo, ele foi conversar com Vitor Schmidt argumentando que “para nós é bom e para os ativos também, pois serão futuros aposentados”. Quando Vitor o convidou para ser o presidente da nova associação, ele retrucou “eu, com apenas a quarta série primária?”. Na assembleia que o elegeu por aclamação sentiu um frio na barriga e refletiu “um matuto como eu pegar uma associação tão importante, mas tenho que fazer alguma coisa”.

O Homem da Luz iniciou a Apcelesc com um livro de atas e um livro caixa que adquiriu com seus próprios recursos. Mas em menos de um ano havia conseguido melhorias nas complementações dos salários mais baixos, pagamento de décimo terceiro salário para aposentados e pensionistas e atendimento dentário. Na assembleia que o reelegeu, ele pôde anunciar a extensão do plano de saúde a aposentados e pensionistas.

O Homem da Luz extrapolou o bairro do Ribeirão. Isidro Domiêncio Pinheiro tornou-se um símbolo, um patrimônio dos empregados e aposentados da Celesc em todo o Estado de Santa Catarina.

O Homem da Luz, também chamado Isidro da Luz, ou ainda Seu Isidro, foi embora neste sábado, 9 de fevereiro, deixando órfãos não apenas os filhos, mas uma infinidade de amigos e admiradores.

Sua luz permanecerá entre nós.

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