Cleicio, a vergonha da Celesc

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Enquanto governo do Estado patrocina ação contra reajuste da Celesc, presidente defende governador, mente sobre PLR e defende modelo privado em comissão da Alesc

Durante a Caravana da Intercel, os dirigentes sindicais alertavam os trabalhadores das dificuldades que serão enfrentadas na negociação do Acordo Coletivo de Trabalho 2020/21. Em especial, a avaliação de que o momento caótico da política estadual e a péssima relação com a Diretoria da empresa apontavam para uma data-base recheada de ataques aos trabalhadores, seus direitos, suas representações e à própria Celesc Pública.

Nesta semana os celesquianos tiveram uma amostra do descaso do Governo do Estado e da irresponsabilidade do Presidente da Celesc. A intenção privatista de Moisés e sua trupe sempre foi denunciada pelos sindicatos da Intercel. Há em curso um plano estruturado de destruição da credibilidade da empresa para facilitar a venda da Celesc e ele passa pelas inúmeras e evidentes incompetências da Diretoria da empresa e das vergonhosas declarações do Presidente, Cleicio Poleto Martins.

Se no início do ano o Governador sancionou um projeto inconstitucional sobre a cobrança das faturas de energia e o corte durante a pandemia, que levaria à insolvência financeira da Celesc, agora, Moisés coloca a Procuradoria Geral do Estado para atacar a Celesc, patrocinando ação do Procon contra o reajuste tarifário homologado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) à Celesc.

O impacto financeiro de uma possível não aplicação do reajuste levará a Celesc, novamente, rumo à falência e às portas da privatização, penalizando toda a sociedade catarinense. Pior do que Moisés, somente o presidente da Celesc, Cleicio Poleto Martins, que foi à Comissão de Energia da Alesc para defender o investimento privado como solução para o setor elétrico, mentir sobre a imoral Participação nos Lucros e Resultados recebida pela Diretoria e atacar os próprios Deputados, como se o andamento do impeachment contra o Governador fosse responsável pela tarifa de energia elétrica no Brasil ser uma das mais caras do mundo.

Depois de fazer aquilo que faz habitualmente, enaltecer a sua gestão à frente da Celesc com a manipulação dos números da empresa, em suas considerações finais, Cleicio deu um verdadeiro “piti” fazendo uma salada que mistura o custo da energia, a política nacional e estadual, a PLR dos Diretores e dos trabalhadores e uma suposta ética na administração pública em prol da população.

Adepto da tática de contar uma história triste para dizer que o estudo é o caminho para alcançar os objetivos, o Presidente parece ter pulado as aulas de história e, na tentativa medíocre de defender o Governador, demonstrou que não entende nada de política, de economia e do setor elétrico.

Privatização e o preço da energia no Brasil

Segundo Cleicio, a energia elétrica no Brasil é uma das mais caras do mundo, por conta da falta de credibilidade do país perante os investidores estrangeiros. “Quando um investidor lá de fora, olha para o Brasil e vê uma disputa ferrenha entre o executivo e o legislativo, não só nos estados, mas como no Brasil, o cara vai aumentar a taxa de retorno dele, porque o risco é muito maior”.

A primeira mentira de Cleicio é a defesa de que a salvação do setor elétrico é o investimento privado. A tarifa de energia elétrica no Brasil é cara por conta do desmonte do setor através da implementação de um modelo mercantil e neoliberal alicerçado nas privatizações promovidas pelo governo FHC (PSDB) que culminou com a criação da Aneel em 1997.

Além de aumentar a conta para o consumidor, o processo de privatização, sob o pretexto da busca de eficiência, atenta contra os direitos dos trabalhadores, precarizando as condições de trabalho e os direitos dos Acordos Coletivos.

Em artigo que debate o marco legal do setor elétrico, as pesquisadoras Marcela Andresa Semeghini Pereira e Isabel Yamashita deixam explicito o modelo: “Para a agência reguladora, empresa eficiente é aquela que tem custo operacional abaixo do regulatório, independente da forma como se dá essa redução.

A consequência tem sido a precarização das condições de trabalho com parcos efeitos sobre a tarifa, tendo em vista que o peso das despesas com pessoal no custo final ao consumidor é muito pequeno”. Enquanto lutamos para dizer que Energia não é mercadoria e que os direitos dos trabalhadores devem ser respeitados, Cleicio diz que é uma mercadoria e que tem que ser vendida para os gringos às custas de ataques aos eletricitários.

O cientista político da conveniência

Além de defender investimentos privados no setor elétrico, Cleicio consegue fazer uma análise política olhando para o próprio umbigo, na defesa do Governador, como que se agarrando às poucas oportunidades que tem de permanecer em um cargo que nunca ocupou e nunca teria ocupado não fosse a indicação política de seu amigo.

“Essa briga política não é boa para ninguém. E num momento de pandemia, ao invés de nós estarmos unidos, discutindo o que é melhor para a população, tá se discutindo já a eleição de 2022. Então, isso vai continuar assim enquanto os políticos, vocês aqui e a câmara lá em Brasília não sentarem e conversarem e pensarem na população. É isso que a gente tem que fazer. Essa briga vai trazer dinheiro caro para o Brasil, isso é natural. Quanto maior o risco, mais tu vai querer cobrar”, disse em suas considerações finais à Comissão de Energia.

Na lógica de Cleicio, o que aumenta a conta de energia é o processo de impeachment de Moisés e as investigações sobre as denúncias de corrupção no Governo. Cleicio dispara uma metralhadora de falas desencontradas e desconexas da realidade para defender Moises.

O discurso inflamado de que a disputa entre legislativo e executivo é a causa de todos os males – inclusive do aumento da tarifa – não passa de um lamento vergonhoso de quem só manterá o cargo se o amigo continuar no poder.

“A distribuição da energia era uma vergonha”

No meio da salada, Cleicio arruma espaço para reproduzir uma de suas mais frequentes mentiras: de que ele é o salvador da Celesc. De que a empresa era um caos e que ele veio para botar ordem na casa. “Santa Catarina era uma vergonha na distribuição de energia elétrica! Uma vergonha! Cabo de aço, meu amigo. Que que é isso! Que falta de respeito com a sociedade”, diz em certo momento.

A fala que foi classificada pelo colunista Moacir Pereira como “Fake News”, demonstra a arrogância e a ignorância do Presidente, que desconhece a evolução dos parâmetros construtivos das redes da Celesc, onde o aço era utilizado nas redes rurais (como fio individual ou “alma” dos cabos de alumínio) por conta da alta resistência física/mecânica em detrimento à baixa condutividade, em um momento onde a maioria das residenciais rurais eram atendidas por redes monofásicas, e a demanda de carga era baixa.

É impressionante a manifestação do presidente, considerando que até pouco tempo atrás o trabalho da empresa era promover a universalização do acesso à energia elétrica (e foi a primeira distribuidora do Brasil a atender 100% da população na área de concessão) e que, agora, com os recursos oriundos do BID conquistados pela mobilização dos trabalhadores organizados pelos sindicatos da Intercel e pelo trabalho da gestão anterior que ele, de maneira antiética, define como vergonhosa, não faz mais do que a obrigação ao aplicar os recursos que recebeu “de bandeja”.

Mas Cleicio vai além: “Hoje vocês estão me vendo na presidência da Celesc, mas eu com nove anos de idade era boia fria, subia no caminhão de boia fria e nunca fiquei me comparando com outros. Não sou mais feliz hoje do que era quando tinha nove anos, mas tenho muito mais responsabilidade, tô tratando essa empresa com muita responsabilidade”.

O Presidente da Celesc usa seu histórico pessoal como justificativa para contar uma obra de ficção. Recorrentemente o presidente recorre a sua infância humilde para vender uma imagem de ser alguém que não é. Com o pano de funda da sua história de vida, o presidente se apresenta como alguém “responsável”, mas na verdade é o mesmo que tem tentado implementar na Celesc medidas privatistas como o aumento da terceirização; é o mesmo que se nega a recompor o quadro de pessoal para atender a sociedade; é o mesmo que, irresponsavelmente, defende um Governador que, dia após dia, põe a Celesc no caminho da privatização.

A Intercel já fez críticas à postura arrogante do Presidente, que reproduz a “velha política” de desfazer todos os ganhos anteriores e assumir todas as glórias do trabalho dos outros.

A desinformação da PLR

Tendo sido notícia recente, a PLR dos Diretores também foi alvo de distorções por parte do Presidente. Para encobrir a imoralidade no pagamento de somas vultuosas aos diretores, Cleicio traz para o debate a PLR dos trabalhadores e, novamente, mente.

“Nos últimos 10 anos foram distribuídos R$ 310 milhões somente para os empregados. Tem categoria que o ano passado recebeu 4,7. É justo. Eu acho justo como Presidente da empresa. É uma ferramenta de gestão para os empregados se motivarem e atenderem a população num momento do Ciclone, como aconteceu”. A PLR dos trabalhadores nunca esteve em discussão.

Da mesma forma que um misterioso documento contendo informações que não são públicas chegou à Assembleia Legislativa para atacar os trabalhadores e pedir a privatização da Celesc, Cleicio distorce os fatos para tentar tirar o foco do fato. A Participação nos lucros dos trabalhadores é prevista em constituição e regulamentada através de lei.

Já a PLR à Diretoria é uma liberalidade da empresa e, sendo a Celesc uma estatal, os valores acordados com o Conselho de Administração (com exceção do representante dos empregados, que sempre votou contra) são um descaso com o patrimônio público. Cleicio ainda mente aos Deputados sobre o montante distribuído aos trabalhadores, utilizando bases de comparação diferentes, uma vez que, em média, enquanto os diretores podem chegar a receber seis salários, os trabalhadores não chegam a 1,6.

O indisponível Cleicio

Cleicio concluiu: “enquanto nós não tomarmos com seriedade nossas responsabilidades, como administradores públicos, o país vai ficar patinando. E é um dos países mais ricos do mundo. Tem água, tem agricultura, tem pecuária, tem minério.

Enfim, estou disponível para vir aqui discutir qualquer assunto, agora, que sejamos honestos uns com os outros. Não façamos politicagem, mas sim política que é o diálogo democrático e republicano” Isso mesmo! O mesmo Cleicio, que omitiu o vínculo com empresa concorrente da Celesc e permaneceu um ano inteiro em conflito de interesses, pediu responsabilidade na administração pública.

O mesmo Cleicio, que foi para a França com dinheiro público pediu honestidade aos deputados. E o mesmo Cleicio, que fugiu de todos os debates com as representações dos trabalhadores (inclusive sendo o primeiro presidente da história que se acovardou ao não participar de uma audiência pública na ALESC) e fechou as portas da Celesc para a sociedade, se disse disponível para um debate republicano.

A verdade é que a fala do Presidente da Celesc dá vergonha nos celesquianos. Diante dos deputados estaduais, legítimos representantes eleitos pelos catarinenses, Cleicio fez arroubos de valente, contou mentiras, distorceu fatos, e falou, mas nada disse. Apenas esperneou contra um processo de afastamento que caminha rápido e deve tirar Moisés do poder, trazendo consequências para dentro da maior estatal catarinense.

A repercussão da participação do presidente na reunião da Comissão de Energia foi péssima, e deixou os deputados espantados com tamanha falta de conhecimento, educação e respeito: “como pode alguém tão despreparado ser presidente da Celesc?” confidenciaram vários deputados aos sindicatos da Intercel.

Parece impossível que, mesmo depois de quase dois anos no cargo, Cleicio não compreenda o papel de um presidente da Celesc. Na verdade, é triste e perigoso que a empresa seja administrada por alguém que não compreenda o tamanho da Celesc, sua importância para Santa Catarina e que não respeita os trabalhadores, verdadeiros responsáveis pela história da Celesc como exemplo de empresa pública em um setor majoritariamente privado e focado no lucro em detrimento do bom atendimento à sociedade, um modelo que Cleicio defendeu abertamente na Alesc.

É triste e perigoso que a empresa seja administrada por alguém que não compreenda o tamanho da Celesc, sua importância para Santa Catarina e que não respeita os trabalhadores.

Reajuste tarifário, lei estadual e o impacto para a Celesc e para os trabalhadores

A lamentável participação do Presidente da Empresa na Alesc piorou a situação da polêmica acerca do reajuste tarifário da Celesc. Como o Governo do Estado colocou a Procuradoria Geral do Estado para representar judicialmente o Procon, indo contra o patrimônio público, não é de se descartar que a encenação faça parte do plano de privatização da empresa.

É trágico que o controlador da empresa, novamente, ameace a continuidade dos serviços prestados à população com medidas que levam à insolvência financeira da Celesc. Além disso, a Assembleia Legislativa do Estado aprovou Projeto de Lei que proíbe o aumento de tarifas de serviço púbico durante a pandemia.

É compreensível que, diante de tanta incompetência demonstrada pelo presidente da Celesc, os Deputados tenham aprovado uma lei que impede os reajustes de água e energia. Essa lei, se sancionada pelo governador, agravará a situação da distribuição de energia, precarizando as condições de trabalho e de atendimento à sociedade, jogando a Celesc para os braços da iniciativa privada em um cenário onde a privatização no Brasil apenas piorou o atendimento e aumentou a conta para a população.

O que é importante aqui, no entanto, é ver se a responsabilidade que tanto foi exaltada pelo Presidente será assumida na defesa da Celesc. Até o momento, a Diretoria não se manifestou sobre a ação judicial do Procon e sobre o Projeto de Lei da Alesc. Tendo posto a PGE para advogar contra a Celesc, parece óbvio que Moisés irá sancionar a lei, tornando a situação da Celesc ainda mais delicada.

Será que a Diretoria ficará assistindo inerte o Governador do Estado utilizar a máquina pública de forma populista para tentar recuperar popularidade no Estado e impedir o impeachment, enquanto destrói a maior estatal catarinense e melhor distribuidora de energia elétrica do país no caminho? Ou será que a saída que a Diretoria aponta é o ataque aos direitos dos trabalhadores neste ACT? Serão, novamente, os trabalhadores que pagarão a conta da incompetência de Moisés e de Cleicio?

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