A crise existencial do cinquentão

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Por Rodrigo Galvão, trabalhador da Eletrosul

Um belo dia, o cara amanhece tiozão. Vem a crise da meia idade e a turma legal é a outra – faz tempo. O que na antiguidade era privilégio de poucas pessoas, agora, na pós-modernidade, até algumas empresas são longevas e tem comportamento de cinquentão, na idade do lobo.

Para Shakespeare, os atos de um homem se distribuem por sete idades, essa é aquela em que o indivíduo é: “cheio de aforismos sábios e argumentos modernos”, faz limite com a idade do “velho bobo de chinelos, com óculos no nariz”. Depois, só a segunda infância e fim.

O cinquentão é o único da turma que não percebe seu enquadramento etário. O idioma alemão tem duas palavras para corpo: Leib (o biológico) e Körper (o corpo que considero ser o meu). É como se o tio daquela propaganda de refrigerante (se lembrou, já sabe né: enquadrou)* ainda não aceitasse esse descompasso e, ofegante, visse um corpo se distanciar do outro. Então, aparece a insegurança, ansiedade e baixa autoestima.

Algumas empresas – e pessoas dessa faixa etária, ficam subitamente obcecadas pela aparência e tentam mudar o visual. Olham para o que consideram sua nova identidade e não entendem, aquilo não tem significado, mas o aspecto do logotipo é novo, e isso é o que importa, é modernoso. Chamam atenção, mas não sabem o motivo, nem se a imagem representa o que imaginam.

E não é só a inadequação temporal da aparência (tênis com meia social, pochetes, bigode e boné com a aba para trás na mesma cabeça, essas bizarrices) que identificam o cinquentão. Seu humor é enigmático, as pessoas riem dele e para ele simultaneamente. Algumas por indulgência mesmo, constrangidas pela vergonha alheia. O tiozão do pavê* é uma figura. Tenta estar em pé de igualdade com quem considera seus pares, os mais jovens, mas “putz grila” como é difícil. Seria seu passado carioca que o torna bonachão? Quem sabe ser de capricórnio com a personalidade de virgem seja mais uma piada pronta.

O cinquentão é conhecido por suas confraternizações, mesmo quando está no sufoco, afinal o churrasquinho no fundo de quintal é sagrado. Pelo menos no fim de ano reúne a patota* para celebrar e contar suas anedotas infames. Sua energia é da boa e o puxadinho do churras é sempre estiloso. O tiozão tem a marca da inovação em seu DNA, faz muitos anos.

Para atenuar a crise da meia idade, muda algumas coisas de lugar dentro de casa. Gasta tempo e dinheiro só para se sentir ativo de novo, como quando tinha 22 anos de idade. “Se é que cê me entende?!”, justifica. Essas atitudes aventureiras são típicas dessa fase. Com entusiasmo pueril, nem pensa nas consequências, acha que tem o espírito livre. E isso é entendido como inovador e radical.

Um dia qualquer se considera muito pesado, quer ficar leve, daí descarta o que considera velho para se sentir jovial novamente – um pão*. Faz dietas, contenção de gastos, fica arrependido, ansioso. Quando olha para a “gordurinha” que circula seu umbigo é invadido por uma sensação de estar perdido, sem saber o que fazer, nem para onde ir. O regime não vinga, mas a fome aumenta.

Seu serviço já não tem a mesma eletricidade que tinha, agora é uma coisa básica, até pobre tem! Aquela energia não tem a mesma importância. O cinquentão tem que se reinventar, busca fontes alternativas e novas referencias, mas o futuro continua angustiante. Sente-se apagado, precisa reverter isso. Seria o climatério corporativo que esfria o ímpeto empresarial?

Do nada o tiozão conclui que não é cativo de uma condição preestabelecida, que precisa voltar a ser atraente. Nessa faixa etária esses indivíduos transformam-se em “lobos vorazes”, saindo à caça de presas, de amores impossíveis, que satisfaçam sua auto-afirmação masculina e cobiça.

Por isso, passa a ter ideias mirabolantes, começa a flertar com “outros mercados”. Tenta de tudo para ter uma nova parceira – fantasia: “quem sabe eu tenha sorte, sei lá, com uma gata asiática?” E, mesmo tendo perdido a prática há muito tempo sente-se tinindo*, e tenta. Considera seu estilo desajeitado um charme irresistível, obviamente dá tudo errado.

As situações constrangedoras se perfilam, porque nessa fase da vida, inesperadamente, o órgão sexual passa a ser o presidente do tiozão, que passa a exigir um desempenho púbere. O coitado do tiozão, esforçado, encolhe a barriga, melhora a postura, mas não pega ninguém, nem aqui, nem na China. A crise existencial acentua, agora, com um rancor fálico e uma hostilidade vertical.

O middle aged man deveria estar se dedicando a sua saúde, mas aumenta o período de manutenção e, só de birra, demora mais para fazer seus exames periódicos. Quer ser tecnológico, pop, entrar no Orkut para ser mais descolado, insiste em usar sistemas informatizados que entende patavinas*, só para dar aquela impressão de bacana*.

De repente, tem um comportamento mais impulsivo. Daí inventa de ser sócio de seu jovem amigo gaúcho. Em uma empreitada megalomaníaca, acha que, finalmente, vai ficar rico, voltar a ser valorizado. Não explica como vai ser isso, talvez nem saiba, é tudo muito obscuro, para dar adrenalina mesmo. Sim, já disseram que o cinquentão é o verdadeiro adolescente.

É a fase de enfrentamento com suas limitações, com a restrição de possibilidades. Daí, com medo do fim que se aproxima, decide acabar com tudo logo, antecipando o que considera ser inevitável. Acha que os fogachos que o sequestram são sinais divinos, indicando um novo tipo de iluminação “é o calor da luz no fim do túnel !”, conclui.

O cinquentão age assim porque acha que a vida perdeu a energia. E faz tentativas drásticas de criar novas perspectivas, independente do impacto negativo que cause nas pessoas ao seu redor. Se o tiozão sobreviver à crise de meia idade vai entender que todos envelhecem e que cada fase da vida possui suas dificuldades e benefícios. Se antecipar a sabedoria que se espera ter na terceira idade, vai passar a investir seus recursos naqueles que sempre o apoiaram: sua família e velhos amigos.

E, assim, de bem com a vida, do jeito que ela se apresenta, poderá adequar o passo da caminhada, e ao se dedicar em consolidar uma visão realista, voltar a entender seu posicionamento fundamental, social e sua importância histórica na sua área de atuação.

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