13 de Maio: A Falsa Abolição – Capoeira e Mulher
Por Rosa Cristina Costa – Mestra Rosa
Disseram que era liberdade.
A capoeira, que já existia na clandestinidade, sabia: papel não liberta ninguém, Liberdade se conquista no corpo, na ginga, na esquiva e se sustenta na roda.
O 13 de Maio que a roda não esquece.
Abolição sem terra, sem escola, sem trabalho com salário, sem reparação, não é ABOLIÇÃO; É ABANDONO!
Trocaram a senzala pela favela. O tronco pelo Código Penal.
E criminalizaram a capoeira em 1890 porque sabiam: ali morava a memória de um povo que se recusou a morrer. A capoeira é filha direta do 13 de Maio inacabado.
Ela nasceu como defesa pessoal de quem não tinha defesa.
Nasceu como fé de quem teve o Orixá proibido.
Nasceu como resistência de quem teve o corpo transformado em mercadoria. Por isso, 13 de Maio para as e os capoeiristas não é festa. É dia de MEMÓRIA.
É dia de lembrar que a liberdade que a gente tem, a gente teve que arrancar.
E onde estava a mulher nisso tudo?
Estava.
Sempre esteve. Estava em Dandara comandando Palmares.
Estava em Luiza Mahin articulando a Revolta dos Malês.
Estava em Maria Felipa queimando navios portugueses.
Estava nas Mães de Santo que benzeram berimbau escondido, nas que curaram com folha, nas que cozinharam para a roda acontecer, nas que gritaram “polícia” quando o jogo era proibido.
A MULHER NEGRA PARIU A CAPOEIRA.
MAS A HISTÓRIA OFICIAL TIROU ELA DA FOTO.
O próprio Dossiê do IPHAN que tornou a capoeira Patrimônio em 2007 ouviu 17 mestres. Zero MESTRAS.
O papel da mulher na capoeira:É REFUNDAR A RODA. Eu entrei na capoeira há 43 anos, menina, invisível.
A capoeira me deu o que o 13 de Maio, prometeu e não cumpriu: Me deu defesa pessoal,ensinou que meu corpo é meu território e não se pede licença para existir.
Me deu autoestima. Mostrou no espelho que eu não era frágil: eu era mandingueira.
Me deu força. Porque levantar do chão depois de uma rasteira é sobre a vida inteira.
Me deu fé. A roda virou meu altar quando duvidei de tudo.
Me deu resistência. Porque permanecer, por 43 anos, foi meu ato político.
E há 10 anos, me deu a mestria.
E mestria de mulher não é sobre chegar lá. É sobre abrir caminhos.
É sobre garantir que outras mulheres não passem o que eu passei.
É sobre zelar, cuidar e manter viva essa arte que salva muitas vidas.
Lembrar: O 13 de Maio foi incompleto e a conta ainda está aberta.
Reconhecer: a mulher sustenta a capoeira desde sempre, ainda que neguem.
Respeitar: a capoeira e a mulher capoeirista, porque desrespeitar uma é desrespeitar todas.
A capoeira é a abolição que a gente faz com as próprias mãos.
E a mulher é quem garante que essa abolição aconteça todo dia, em cada roda.
Enquanto o Brasil não acertar as contas com sua história, enquanto a liberdade assinada não virar liberdade vivida, a gente continua.
Gingando. Ensinando. Resistindo. Porque a gente não esquece.
E a gente não vai parar a roda.
E que não se romantize a dor de um povo.
Que se respeite a luta de uma mulher.






