Discurso e prática divergem em reuniões com diretoria da Celesc
Clima na entrega da pauta de reivindicações da categoria é exatamente oposto ao da reunião de CRH, que aconteceu na sequência
Na sexta-feira, 12 de agosto, os sindicatos da Intercel entregaram em mãos ao presidente da Celesc, Cleicio Poleto Martins, a Pauta de Reivindicações do Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) 2022/2023. A coordenação da Intercel destacou a importância da entrega do documento ao presidente em ato formal, pela importância e responsabilidade de uma pauta construída e pensada de forma coletiva desde o mês de junho, em Assembleias Regionais, e referendada por quase seiscentos trabalhadores na Assembleia Estadual, ocorrida em 06 de agosto, na cidade de Jaraguá do Sul.
Presente na cerimônia de entrega, o Representante dos Empregados no Conselho de Administração da Celesc, Paulo Horn, reforçou que “este é o momento mais importante para a categoria”. E lembrou que “as partes entram, a partir de agora, numa negociação com mudanças importantes na interlocução: já havia uma conversa estabelecida com o diretor Pablo Cupani e agora haverá novos interlocutores” e que a dúvida trazida pela mudança pode se transformar em oportunidade, para que não só a negociação do ACT se dê de forma tranquila, mas também que as demais negociações pendentes aconteçam sem maiores sobressaltos. “Os sindicatos estão demonstrando disposição para fechar o ACT em mesa e os trabalhadores esperam ter o reconhecimento pelos tantos prêmios que a empresa vem recebendo e pelos resultados financeiros positivos nos últimos anos”, afirmou Paulo.
O presidente Cleicio, por sua vez, respondeu que “a negociação do último ano foi boa, dentro das possibilidades da empresa, foram contratados mais de quinhentos trabalhadores mas é preciso que se tenha responsabilidade para manter a saúde econômica da empresa, para que tudo aconteça com a maior segurança possível”. O presidente reconheceu que no ciclone da última semana todos os problemas foram solucionados rapidamente pela categoria: “pessoas estão em campo fazendo seus trabalhos com os melhores equipamentos possíveis.
Hoje não escutamos mais pessoas falando que faltam ferramentas. Isso tudo é fruto do debate, e os sindicatos também têm participação”, afirmou Cleicio. Por fim, o presidente afirmou concordar que não há motivos para ter dificuldades de fechar o ACT deste ano e que tudo será debatido e explicado em mesa.
Apesar dos números positivos da Celesc na avaliação dos consumidores e dos recordes de lucro que os trabalhadores vêm construindo ano a ano para a empresa, o presidente trouxe outra perspectiva da companhia: explorar novos nichos de mercado para equilibrar possíveis perdas que podem ser ocasionadas pela abertura do mercado.
Também informou que está sendo aberta uma nova loja de atendimento no norte da Ilha, em Florianópolis e que estudam a possibilidade de abrir uma nova loja no centro da capital catarinense, além de ter sido autorizada a contratação de novos eletricistas para a região da Grande Florianópolis: “aquilo que combinei com o governador Moisés está sendo cumprido, a empresa continuará pública, prestando um bom serviço”, afirmou.
Os sindicatos concordaram com a necessidade de que as lojas de atendimento estejam localizadas em regiões centrais das cidades, próximas a bancos e cartórios, facilitando a vida dos clientes. E destacaram que é preciso que atendentes e eletricistas sejam primarizados, além da necessidade do suporte a estes profissionais, considerados o “cartão de visitas” da empresa.
Finalizando a cerimônia de entrega, a coordenação da Intercel apelou para que a diretoria da Celesc sustente sua disposição para manter a negociação em mesa, possibilitando que os diretores interlocutores não estejam engessados e tenham autonomia, papel fundamental no processo negocial. Reafirmou, ainda, que os sindicatos da Intercel estarão abertos a um processo de negociação com o objetivo de conquistar um ACT justo a todos os trabalhadores.
A coordenação da Intercel apelou para que a diretoria da Celesc sustente sua disposição para manter a negociação em mesa, possibilitando que os diretores interlocutores não estejam engessados e tenham autonomia.
CRH:
Momentos após a entrega da Pauta de Reivindicações, sindicatos e diretoria da empresa, a partir de agora representada pela Diretora Pilar Sabino e pelo Diretor Marcos Pacheco, se reuniram para debater na Comissão de Recursos Humanos (CRH) o desconto do ponto dos trabalhadores que paralisaram no dia 29 de junho em defesa do Plano de Saúde dos celesquianos.
Os sindicatos e a categoria tinham bastante expectativa nesta reunião, já que havia a promessa de uma reunião com a nova composição da diretoria da Celesc, que agora conta com seis, dos oito diretores, como empregados da casa. Era esperado que os diretores empregados se sensibilizassem com o desconto indevido realizado e argumentassem em defesa dos próprios colegas.
Após sinalizarem, na última reunião, possibilidade de mudança do entendimento dessa questão, a expectativa era que a diretoria revertesse o desconto no ponto dos trabalhadores no dia 29 de junho, tendo em vista que foi divulgado e aplicado o desconto pela Celesc antes mesmo que fosse solicitada uma reunião de CRH entre sindicatos e empresa, em descumprimento ao previsto na cláusula 26ª, parágrafo 6°, do ACT vigente. A Intercel alegou que manter o desconto só reforçaria a tese de descumprimento do ACT atual.
Os diretores, infelizmente, tão somente reafirmaram e referendaram a decisão tomada anteriormente, alegando que manteriam o desconto na folha de pagamento sem ressarcimento aos trabalhadores por este ser o entendimento do Diretor Jurídico, Fábio Valentim. Sobre o desconto do dia 21 de julho, os representantes da empresa afirmaram que o desconto seria feito da mesma forma, ou seja, neste caso nem possibilitaram outra alternativa de pagamento pelos empregados que não fosse o desconto direto na folha, num processo truculento, que pune quem luta pelos seus direitos.
Os sindicatos ficaram bastante surpresos com a posição da empresa. Afinal, se o objetivo era manter o desconto, por que essa posição não foi informada claramente na reunião realizada na última segunda-feira? “A diretoria acabou criando uma expectativa na categoria de que a nova composição da diretoria se reuniria, faria um debate qualificado, enxergaria o descumprimento da cláusula do ACT vigente e modificaria sua posição, revertendo o desconto ilegal”, afirmou a Intercel. Mas a decisão da diretoria foi esta, completamente punitiva, sem qualquer margem para negociar.
Os sindicatos ainda fizeram um apelo para que os interlocutores da empresa revissem o posicionamento sobre o desconto do dia 21 de julho, mas eles demonstraram não ter autonomia para tanto. Os diretores indicados para negociar não tinham o que, no jargão popular, é chamado de “tinta na caneta”. Chegaram com uma proposta pronta, sem possibilidade de acordar caminho alternativo ou um meio termo, possibilitando, por exemplo, que os trabalhadores pudessem compensar as horas descontadas.
O entendimento da Intercel é que a direção da empresa manteve o desconto para amedrontar os trabalhadores às vésperas do início das negociações do Acordo Coletivo de Trabalho, com a intenção de desestimular a categoria a participar de qualquer ato em defesa de seus direitos. Os sindicatos informaram que a atitude da empresa pode provocar justamente o sentimento contrário, gerando ainda mais indignação e incitando os trabalhadores a participarem de movimentos por seus direitos.
Por fim, não havendo margem para negociar ou rever a decisão, a Intercel informou à direção da empresa que não há outra alternativa senão ingressar com ação judicial por descumprimento do Acordo Coletivo de Trabalho vigente, já que o desconto foi efetivado antes da realização de uma reunião de CRH, descumprindo cláusula do ACT.
PLR 2022:
Se no debate da CRH já percebeu-se um ambiente bastante diferente daquele da entrega da Pauta de Reivindicações e demonstrou que os novos diretores que estão na mesa de negociação não têm autonomia, o debate sobre a PLR 2022 das celesquianas e celesquianos teve um clima ainda pior. Toda a disposição que o presidente Cleicio alegou ter para negociar e resolver pontos divergentes em mesa parece ter se resumido à conversa e não se traduziu na prática – ao menos nesse primeiro momento.
Na reunião passada, em conversa prévia à negociação, a empresa alegou quatro pontos de divergência. A Intercel esperava debater tais assuntos na reunião, porém não verificou-se evolução alguma. A empresa informou que pretende dar um reajuste de cerca de 10,10% da parcela base da PLR do ano passado (alegando ser um valor intermediário entre IPCA e INPC), sem qualquer evolução dos demais pontos divergentes.
Os sindicatos alegaram que a proposta está muito inferior ao que foi reivindicado e que não evoluiu sequer em pontos que não trazem qualquer impacto financeiro para o caixa da Celesc, como na linearidade da distribuição dos lucros (que hoje acontece na proporção 60/40), pedido repetido pela Intercel todos os anos.
Por fim, os sindicatos argumentaram que farão as assembleias nesta semana para debater a proposta de PLR da empresa junto à categoria, com indicativo de rejeição, diante da proposta considerada não só ruim, mas ainda pior que a do ano passado.
Plano de Saúde:
Cercados pela grande expectativa da categoria, os debates da nova proposta de Plano de Saúde não tiveram avanço em mais uma reunião. O representante da empresa afirmou não ser possível apresentar proposta consolidada, argumentando que é preciso levantar números do passivo e possíveis impactos à companhia. Os sindicatos cobraram que a diretoria apresente nos próximos dias alternativas para solução do problema, para possibilitar negociação em mesa e resolução do atual grande problema enfrentado pela categoria.
Informaram, ainda, que os celesquianos e celesquianas aguardam ansiosos pela nova proposta, a fim de que se dê oportunidade de escolha aos trabalhadores, possibilitando que todos tenham acesso ao Plano de Saúde, seja o novo ou o atual, não apenas preservando e respeitando direitos anteriormente conquistados mas também lutando pela saúde de toda a categoria, de forma unida.


