Crônica: Os Nefandos
Por Anderson Barbosa, trabalhador da Celesc na Administração Central e dirigente do Sinergia
O olhar perdido me transporta para o momento congelado em que a alma inocente se pergunta o que está acontecendo. Poeira e sangue pintam os rostos dos anjos desnorteados. Do sangue e lágrimas dos inocentes os nefandos crescem. Matam e se matam.
A humanidade criou sociedades cômicas e doentias que impõem regras igualmente cômicas e doentias disfarçadas de uma seriedade sóbria que zomba daqueles que ousam pensar.
Sirvam-se, sirvam-se à vontade. Armas à vontade para os covardes, a espreita de uma oportunidade para descontar suas frustrações em quem considera ser mais fraco, só por não ter uma arma, só por não concordar, só por não ser como o “ser” que um deus pensa ser. Por ser diferente.
A ignorância que manda cem ou cem mil para as covas aprisiona outros milhões nas lembranças dos que não mais existem entre nós.
O ser humano está em decadente mutação intelectual. A banalidade de palavras e sentimentos protagonizam essa peça tragicômica chamada de vida. Falsos profetas deram espaço aos falsos moralistas. Nefandos que nasceram com a missão de dizer o que devemos fazer, por ser correto de acordo com uma convenção imutável onde interesses de classe são claramente visíveis.
Falsos profetas deram espaço aos falsos moralistas. Nefandos que ditam mas não obedecem ou fazem o que dito foi. A proliferação dessa praga tem como inseticida o livre e crítico pensamento. Enquanto os falsos proliferam, os inocentes sentem e vivem a fúria do mundo que herdarão. Os que sobreviverem herdarão.
Triste é pensar que os nefandos que hoje matam muito mais do que sonhos já foram, um dia, inocentes.
Texto inspirado na foto do menino Omran Daqneesh de 2016, feita pelo fotógrafo Mahmoud Ruslan. Escrito em 17/10/21 “Os Nefandos” compõe, com outros textos, o livro “Rabiscos literários e o arquipélago do desalento” de Anderson Barbosa, publicado em 2021. Infelizmente o texto continua sendo atual.


